Grandes poderes, grandes pudores

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Guilherme Schmidt

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É triste perceber o quanto o mercado se esforça em vender a imagem do líder imbatível, que tudo sabe. A “meritocracia”, onde o sucesso (aparentemente) guarda relação direta com a sua capacidade de abdicar de “distrações”, despender energia à exaustão e manter-se impassível ante as adversidades esconde por trás uma realidade perversa de profissionais frustrados, à beira da falência emocional.

Liderar é pesado, e a necessidade de confrontar as próprias limitações adiciona uma carga extra às responsabilidades de equilibrar resultados e expectativas. Não sou exceção à regra, e pretendo cumprir em boa parte dos textos a função de descortinar verdades inconvenientes e expor minhas vulnerabilidades. Para inaugurar o divã, comecemos com a seguinte história.

UM ESTRANHO NO NINHO

Meu primeiro grande desafio profissional veio por volta dos 21 anos, quando assumi sem a mínima capacitação o papel de Gerente de Projetos em uma empresa de TI. Já havia estudado a disciplina por dois semestres na graduação mas, como qualquer marinheiro de primeira viagem não tarda a perceber, a lacuna entre a teoria e a prática é um tanto abissal.

Sob a minha responsabilidade um projeto de alguns milhões de reais, uma equipe em grande parte inexperiente e um escopo abstrato, apoiado em conceitos e tecnologias distantes do meu domínio. Na cúpula e por quase toda a empresa, profissionais de background técnico descrentes (como eu) da capacidade de um recém graduado em administração, analfabeto em linguagens de programação, para capitanear o navio.

OS EFEITOS COLATERAIS

Me vi despreparado, por vezes desamparado e passei ao hábito de questionar meu valor. Deixava cada reunião com um gosto de derrota e colecionava cefaléias a caminho de casa. Sofria do que os especialistas classificam como ‘Síndrome de Impostor’ e sentia-me uma verdadeira fraude perante a equipe e os clientes.

Conheci o stress, as crises de ansiedade e flertei com os primeiros traços de depressão. Sem o conhecimento ou tempo hábil para adquiri-lo, busquei amparo no principal recurso que havia cultivado nos anos pregressos de atendimento ao público: a capacidade de me conectar com as pessoas.

Do resultado, separei abaixo algumas lições que carrego até hoje e procuro transmitir às minhas equipes e a todos que me procuram para aconselhamento profissional.

DIVIDIR PARA SUBTRAIR (A PRESSÃO)

Seja humilde e divida os “holofotes”: No lugar de me colocar acima ou em pé de igualdade por minha prerrogativa hierárquica me preocupei em ouvir, cumprir o papel de facilitador e abrir espaço nas reuniões para protagonismo dos membros da equipe realmente competentes para discutir determinado produto ou processo.

Além de aliviar o peso do desconhecimento, ganhei a confiança de pessoas que me abriram portas para outras oportunidades profissionais e que até hoje guardo com carinho e admiração, sempre que encontro.

Aprenda para ensinar: Independente da idade ou formação, todos enfrentam as próprias inseguranças em determinado campo profissional e têm algo a aprender. Ao empoderar meus colegas e me colocar na condição de aprendiz dentro de suas áreas de especialidade, ganhei respaldo para entender as suas necessidades e ensinar algo com base em minhas próprias experiências.

Criamos um ambiente seguro de troca, livre de competição, que tenho certeza foi fundamental para o processo de amadurecimento nos âmbitos coletivo e individual de cada um.

Importe-se com as pessoas: As pessoas não são um cargo, elas estão em um cargo. As pessoas não são uma função, elas cumprem uma função. Não existe separação absoluta. À medida que ingressam na empresa elas trazem junto de suas competências e responsabilidades profissionais sua essência e demais aspectos da vida pessoal.

É lógico que o ambiente de trabalho por vezes exige determinada postura e respeito a certos limites, mas a humanidade é o que nos aproxima, e a empatia para entender o momento e os anseios do outro é fundamental na criação de conexões significativas, que levam a melhores resultados. Como mencionei acima, muitos de meus colegas e liderados tornaram-se amigos e um deles (Artur) segue comigo em nosso principal projeto de vida (Moochacho) que nasceu, inclusive, entre um café e outro nas dependências da mesma empresa.

Priorize e aprenda a delegar : Suas dificuldades são um indicador importante sobre quais aspectos você precisa melhorar em sua jornada de desenvolvimento pessoal, mas tente focar naqueles fundamentais para a posição que ocupa.

Durante muito tempo ao longo dessa experiência me preocupei em tentar entender afundo responsabilidades de funções que não me cabiam por achar que o “líder tem que saber tudo” para dialogar com propriedade.

Não há nada de errado em buscar conhecimento, mas procure entender o papel de cada um no processo, aprenda a delegar as atividades que não lhe cabem e concentre as energias naquilo que realmente precisa desenvolver, com base em seus objetivos profissionais (e pessoais).

Cobre menos e reconheça mais: A cobrança (com respeito e propósito) faz parte das atribuições de um líder e se torna natural à medida que a equipe compartilha dos mesmos valores. Dentro de um círculo de confiança, a cultura criada permite que não só o líder, mas também os membros se cobrem entre si e exercitem a auto-cobrança de forma saudável.

Embora exigir seja comum, o reconhecimento sincero é na maioria das vezes um aspecto negligenciado nas relações. A motivação desempenha um papel central na produtividade e um “simples” elogio por vezes é a fagulha necessária para fornecer a tração.

Reconhecer no particular é importante, mas sempre que possível não deixe passar a oportunidade de explicitar “em público” o mérito dos membros envolvidos nas conquistas perante clientes ou membros da diretoria.

Parece clichê, mas o desempenho das partes é o que compõe o sucesso do todo, e a satisfação de sentir-se importante é o melhor dos benefícios que você pode oferecer para impulsionar o progresso de alguém.

Um abraço, G.S.